N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Oração por uma Companheira de Lutas

In memoriam de Isabel Tavares da Cunha, feminista e militante pelos direitos humanos, desde os tempos mais graves da vida pública e política brasileira.

Luzia Álvares


Em 16 de setembro de 2002, deixava este plano de vida a querida Isabel Marques Tavares da Cunha.

Para tratar de uma mulher da estatura histórica dessa mulher, simplesmente Isa, para muitas de nós, feminista e militante pelos direitos humanos, atuando desde os tempos mais graves da vida pública e política brasileira, o termo “anjo” no feminino tem um significado maior do que as explicações de dicionários que consideram essa figura ”um “ser espiritual das teologias cristã, hebraica e islâmica que serve como mensageiro entre Deus e os homens”. A inferência de gênero sobre essa “criatura espiritual” extraída da cultura religiosa tende a repercutir no que conheço da trajetória pessoal de uma mulher que só “desceu aos céus” para fazer a mediação porque a inexorabilidade da espada da Morte definiu-se pelo dia da colheita conforme as dimensões de falência orgânica de seu corpo. Mas deve fazer por lá sua revolução particular, se depender dela.

O que se pode dizer de uma pessoa quando não se conhece o seu passado, mas as ações do presente? A trilha geralmente toma formas variadas de acordo com as estratégias ambientais, mas jamais se afasta do processo originário de vivências. Não conheci a Isa Cunha que se escondia sobre o codinome de “Maria”, na luta clandestina do período da ditadura militar. Nossas andanças começaram em meados da década de 80, quando emergiram os movimentos de mulheres em Belém e ela era uma liderança. De sua exposição sobre a condição feminina, em certa reunião na qual se preparava um encontro acadêmico sobre o tema, senti que havia uma grande sintonia entre nós. Eu era neófita e precisava de conteúdo para saber aonde incluir minhas preocupações sobre a questão da mulher. E diante de mim uma mulher baixinha como eu, dizia coisas que casavam com as perguntas que eu estava me fazendo há algum tempo. “As mulheres são fortes, nada de pensar nessa fraqueza que impingiram sobre a nossa imagem”, dizia ela. E desse primeiro degrau, onde outras dúvidas sobre a minha vivência de gênero, classe média, casada e mãe se deparava com uma ideologia que não combinava com o que eu achava pessoalmente sobre as mulheres, outros mais foram surgindo.

Certa vez, na CPT (Comissão Pastoral da Terra), Isa reuniu um grupo de mulheres da zona rural (que àquela altura, lutava para que seus maridos não fossem presos e/ ou não desaparecessem à noite da cela da prisão) e me inseriu nesse meio para meu conhecimento das condições que elas enfrentavam com filhos & casa & trabalho & conflito de terra. A riqueza desse encontro e  iniciação no assunto que me fascinava deixou-me estressada, confesso, mas me deu ânimo de continuar no tema. Sentindo minhas angústias pelo fato de não ter as condições objetivas para acompanhar aquele grupo de mulheres até Conceição do Araguaia (docente da UFPA e cronista de o Liberal com coluna diária de cinema), Isa Cunha, entretanto, não me deu trégua: chamava-me para acompanhá-la em qualquer evento em que a questão da mulher pudesse ser observada. Mesmo assim, ainda respaldou minha carta-proposta de tema ao NAEA, sobre a luta das mulheres rurais. Mas, posteriormente, definimos o que seria a minha inclinação definitiva: mulher & política. Desse tempo, tenho uma longa entrevista que ela concedeu a mim e a uma aluna de Ciências Sociais, sobre o início do movimento de mulheres em Belém.

O feminismo de Isa Cunha tendia a uma radicalidade sem fronteiras, quando a situação se inclinava a constatar a violência contra a mulher. Mas ela ia mais além, mostrando que se deixássemos de lado o companheiro sem as informações pontuais sobre a violência praticada, não mudaríamos nada, não chegaríamos a desenvolver o pleito maior que era a mudança social. E essa posição dela me fascinava, pois sempre foi esse o meu ponto de vista. Desta sintonia, extraíamos a argumentação necessária para a revisão de algumas versões que não levavam a quase nada. Nossas conversas eram sempre para a definição de posições dos temas sobre a questão da mulher, nos textos teóricos que surgiam e também na prática, quando ela via que estas posições tendiam a excluir algum ator social do processo. Eram sempre para planejar alguma oficina, curso ou palestra que levasse informação às mulheres. Por isso, Isa sempre estava presente nos eventos promovidos pelo GEPEM/UFPA dando sua contribuição às novas gerações. Esta parceria se não alcançou mais o presencial, seu rastro tem estado presente entre nossas companheiras de movimento e isto é muito bom saber. Mas, aquela ternura de Isa Cunha de comentar a mudança na vida da mulher e tratar com radicalidade a justiça social para humanos e humanas vai ficar na diretriz de nossas vidas.

O movimento dos direitos humanos ficou pobre ao perder Isa Cunha, que foi ferida de morte no emprego que mantinha há muito tempo, onde não foi tratada por alguns com o instrumento que fazia dela a grande militante: os direitos humanos.

Este registro tende a harmonizar-se num plano cinematográfico  em  que o argumento se propõe para a realização. A trajetória de Isabel Tavares da Cunha, cavando mudanças para a melhoria da sociedade, seria bem o enredo em que eu apostaria ser um grande filme saído da batuta de um Federico Fellini.

Obrigada, amiga, por tanta coisa boa que deixaste! Isa Cunha vive! Presente!

Texto  publicado em “O Liberal”, coluna Panorama, em setembro de 2002.

Maria Luzia Miranda Álvares é Doutora em Ciência Política, Coordenadora do GEPEM/UFPA, Coordenadora Regional do OBSERVE. e uma das pioneiras dos estudos de mulher e gênero, no Pará, desenvolvendo trabalhos sobre a temática feminismo, mulher e gênero, com incursões sobre o entrelaçamento das representações socioculturais nas estruturas de poder.