N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

Nosso Machismo Cotidiano: o menino Alex

Michael Machado

Uma notícia publicada no site do jornal O Globo, em 19 de fevereiro de 2014, informava que um pai foi preso por espancar até a morte o seu filho de 8 anos. O que, até então, aparentava ser mais um caso de infanticídio no Brasil ganhou novos contornos com a presença de outros elementos.

Mas, o que estava por trás de tal caso de violência? Após as investigações policiais constatou-se que Alex foi morto pelo pai por não seguir os padrões de masculinidade que este idealizava, a violência para com o menino foi tamanha que o seu fígado foi dilacerado.

Alex foi vitima do ódio manifestado por seu pai que não aceitava que o mesmo menino que brincava de carrinho (seguindo informações dos vizinhos) gostasse de lavar louças. Para o seu pai, era inconcebível que um homem realizasse atividades “femininas”. Diante desse fato, questionamos o que é ser homem? O que é ser homem para o pai de Alex? E para nós, o que  ser homem significa?

Em seu depoimento, o pai afirmou que bateu no menino e que o irritava o fato de a criança não chorar e por isso ele “batia mais e cada vez mais forte”. Entretanto, não é a mesma sociedade que (re) produz em suas práticas cotidianas o argumento de que “homem, que é homem, não chora”?

O binarismo de gênero coloca as pessoas em polos opostos e excludentes, onde existe um “reino” dos homens e as “cozinhas” das mulheres e dos demais seres inferiorizados e invisibilizados.

Esse tipo de agressão, como a que ocorreu com Alex, nos choca e nos incomoda, tanto pela crueldade quanto pela violência. Alex, por transitar entre práticas que são catalogadas como de homens e de mulheres, pagou um alto preço.

Todo o sentimento de repulsa e de aniquilação do pai não difere em nada dos discursos que criminalizam, julgam e conclamam a violência e que tentam invizibilizar a possibilidade de outras formas de ser e de viver.

Atualmente, no Brasil, esses discursos têm ganhado destaque, à medida que cresce a (re) produção de argumentos religiosos de cunho fundamentalista e, mais recentemente, dos que defendem o militarismo (um exemplo foram às reedições das “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” em algumas cidades brasileiras em comemoração aos 50 anos da instauração da ditadura civil-militar no Brasil).

Quantos “Alex”, Alexandres, Ivos e tantas mulheres e pessoas trans ainda serão vítimas do machismo e de toda  sua agressividade? Em nome desse modelo idealizado de homem, todos e todas aqueles/as que não seguem esse roteiro acabam invisibilizados, colocados à margem, expulsos do tecido social ou até mesmo mortos.

Mas, até quando viveremos sob o jugo de uma matriz argumentativa que orienta práticas que resultam em tanta violência para homens, mulheres, LGBT’s, crianças, idosos?

Segundo os dados do Mapa da Violência no Brasil (Brasil, 2013), os homens, em especial os homens jovens, é o grupo populacional que mais morre no país, sendo as causas externas(violência, acidentes, entre outras) as principais motivadoras dessa mortalidade.

Esses elementos fomentam a reflexão de que até para aqueles cuja atual ordem de gênero parece beneficiar, trazem consequências em suas vidas. Os homens precisam constantemente se afirmar como fortes, corajosos, invencíveis e invulneráveis.

O atestado de “macheza” é algo que se conquista, não se nasce com. E esse título está em constante ameaça. O homem tem que provar o tempo todo que está seguindo o roteiro do modelo idealizado.

Cabe a nós reagir a tais discursos, de maneira firme e criativa. Somos múltiplos e diversos.

Michael Machado é Psicólogo (UFAL/2010) e Doutorando em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Desenvolve pesquisas sobre masculinidades e políticas públicas de saúde. Pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidades da UFPE.