N. 19 – Belém/PA - Novembro/Dezembro - 2014

O que Dizem as Pesquisas

Maria Luzia Miranda Álvares

Mais do que é possível entender que as mídias impressa ou digital têm assegurado espaço a divulgar um patamar de inferioridade ao registrar alguns percentuais e não outros das pesquisas de intenção de votos em candidatos à presidência de república onde concorre uma mulher em busca da reeleição ( e outra, pela primeira vez, Denise Abreu, PEN) é possível observar o lado complexo da expressão de um eleitorado que ainda transmite seu conservadorismo político e seu tradicionalismo de gênero como elementos valorativos/morais importantes, embora esteja em curso um processo mundial de “destradicionalização e modernização societária e política com incidência na sociedade”. Esta percepção não é de minha lavra, mas de um estudo realizado pelas pesquisadoras Marlise Matos e Marina Brito Pinheiro (UFMG) e publicado no livro de Alves, Pinto & Jordão (orgs.) “Mulheres nas Eleições 2010” (Consórcio Bertha Lutz, 2012), com o título “Dilemas do conservadorismo político e do tradicionalismo de gênero no processo eleitoral de 2010: o eleitorado brasileiro e suas percepções” (pags. 47-91).

Partindo dessa questão-chave com algumas variáveis para explorar, as pesquisadoras realizaram um survey aplicado pelo IBOPE Inteligência, com uma amostra de 2.002 eleitores brasileiros, em setembro/2010, utilizando “um conjunto de indicadores sobre conservadorismo político, confiança em instituições e na democracia, além de indicadores que visaram mensurar aspectos e dimensões do tradicionalismo de gênero e raça nos espaços públicos e privados no Brasil.” (p. 47) Neste último eixo, os seis indicadores avaliados pelas pesquisadoras centraram-se em: “tradicionalismo nos espaços públicos (política e trabalho); tradicionalismo nos espaços privados (família e filhos); tradicionalismo de gênero na política institucional; percepções sobre preconceito de gênero e raça difuso; discriminação focada em aspectos cognitivos; e elementos de destradicionalização de sexo/gênero” (p. 62).

A importancia desse trabalho traduz-se na evidência de que há em curso um processo de destradicionalização e modernização societária no Brasil, entretanto, concluem as autoras “os índices construídos foram capazes de identificar eleitores/as brasileiros/as com percepções fortemente conservadoras em termos políticos e percepções fortemente tradicionais em gênero, raça e sexualidade (ou com as duas percepções juntas), sendo este grupo responsável, no Brasil, por manter e perpetuar uma sociedade politicamente anti-igualitária e antidemocrática”. (p. 84)

Não intenciono dissecar o artigo, mas este serve de mote, pelo tema abordado, para o que se pretende avaliar de uma recente pesquisa de intenção de voto do DATAFOLHA (de 06/06) em que é demonstrado que na corrida ao cargo pelo qual pretende ser reeleita, Dilma Rousseff (PT) teria sofrido queda em sua vantagem anterior, mas permanecia acima dos demais candidatos, com 34% dos votos dos eleitores brasileiros, enquanto seu opositor mais próximo, Aécio Neves (PSDB) obteria 19%, seguindo-se Eduardo Campos (PSB) com 7%. O interessante é que entre o detalhismo dos percentuais evidenciam-se, nas questões apresentadas ao eleitor/a, as nuances do que se tem visto na permanente batalha da mídia referente à péssima situação econômica do país e/ ou a versão pessimista da economia com a permanência de Dilma no poder. O que se verifica é que mesmo com esse bombardeio do noticiário cabuloso em aspectos desmentidos pelos índices mostrados também pelas próprias mídias (o caso, por exemplo, do índice de desemprego que está em 4.9%, segundo o IBGE, sendo o menor desde 2002, e dentre vários países) é que a presidente tem 51% das intenções de votos daqueles que vêem a situação econômica do Brasil melhorar nos próximos meses, enquanto Aécio tem 14%. Nesse aspecto pode-se avocar o que Matos e Pinheiro (2012) trataram como destradicionalização de sexo, ou seja, o comparativo aqui se dá para mostrar que embora esteja/seja subliminarmente manufaturada uma questão-chave da qual as mulheres são marcadamente mal vistas como o desempenho administrativo público (nesse caso é isso o que está em jogo) e ou na representação política, os índices ainda são favoráveis ao reconhecimento de que o crescimento econômico tenha bom desempenho nos próximos anos se nas mãos de uma mulher.

O que me chamou a atenção também foi o cenário em que Lula obteve 44% das intenções de voto ao ser apresentado como nome do PT para a disputa presidencial neste período. E ou o fato de seu apoio render mais votos a um candidato (36%) do que seu antecessor. Observa-se que embora a figura do ex-presidente tenha marcado o panorama brasileiro, quem está no poder é uma mulher do seu partido, que perde pontos na administração do país ao ser acusada de má administradora, no caso da CPI da Petrobrás, embora, quando Lula ainda no desempenho do governo concorreu com as marcas do chamado “mensalão” e foi exitoso.

É nesse cenário que a tradição propõe a presença masculina com mais ímpeto do que a feminina competindo na política. Desde o princípio do governo, Dilma tem sido vista como “Dilmão”, ou seja, castra-se a sua feminilidade para forjar uma aparência masculina, representando o nível de conservadorismo político e do tradicionalismo de gênero evidenciado no estudo de Matos & Pinheiro. E nas pesquisas de 2010 a proporção de intenção de voto a Dilma foi a pior entre o eleitorado feminino em relação a Serra (Alves, 2010), sendo as mulheres que movimentaram essa eleição para o segundo turno. Contudo, algumas evidências dos estudos-base deste texto referem que foi possível perceber que “são as mulheres e igualmente os/as entrevistados/as pretos/as e pardos/as que tendem a apresentar padrões de percepção mais destradicionalizados em relação a temas extremamente polêmicos na sociedade brasileira (...)”. Dessa forma, o que sempre é tratado nos padrões patriarcais sobre as mulheres recebe um novo olhar em estudos e fatos que sacodem o tradicionalismo e revertem o cenário.

Nota: texto originalmente publicado em “O Liberal”, de 13/06/2014, Belém/PA .

Maria Luzia Miranda Álvares
é Doutora em Ciência Política, Coordenadora do GEPEM/UFPA e uma das pioneiras dos estudos de mulher e gênero, no Pará, desenvolvendo trabalhos sobre a temática feminismo, mulher e gênero,com incursões sobre o entrelaçamento das representações socioculturais nas estruturas de poder. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .